Este é talvez o texto mais importante para a compreensão do Bonsai
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Os
Escritos de Kyuzo Murata
* * *
“Foi
entorno a 1960 que, em todo o mundo, se
começou a ouvir uma nova palavra: Bonsai. Naturalmente, a principio poucos
apaixonados a conheciam, tanto mais que, estas plantas eram conhecidas como árvores
anãs, árvores em vaso ou árvores em miniatura.
Para a Exposição
Mundial de Osaka, em 1970, foi
montada uma excepcional mostra; eu creio que esta tenha sido a ocasião que
levou ao conhecimento geral o Bonsai e a palavra bonsai, não só aos muitos
visitantes estrangeiros mas a todo o mundo.
Seja por
ocasião da Expo, como depois, que foram postas algumas perguntas: qual é a
definição de Bonsai? Qual a diferença entre Bonsai e o Hachiue ou planta em
vaso? As respostas não são simples, eu dou, geralmente, a seguinte definição:
o Bonsai é uma planta viva colocada
num vaso, sobre a rocha ou sobre pedras onde pode viver de maneira semi-
permanente. Esse não só tem a natural beleza dessa planta em particular, mas o
seu aspecto nos reporta em mente qualquer coisa mais que não a planta por si só.
Poderia ser uma cena de uma floresta ou uma parte dessa, uma majestosa árvores
solitária, uma paisagem marinha ou um lago, um rio, um ribeiro ou um charco. É
possível que a sua visão nos reporte em mente o vento que passa entre os ramos
e embala as folhas.
O objectivo
principal do Bonsai no Japão é o de recrear uma cena natural em vaso. Usando
as plantas como material principal. Se em vez disso, vocês olharem um Hachiue
simplesmente vêem a “graciosidade dessa
planta ou das suas flores”, essa não vos dará nenhuma outra
particular sensação. É, no entanto, possível transformar um Hachiue num
Bonsai usando aquelas que nós chamamos de “técnicas Bonsai”.
Com as técnicas
para Yose-eu (floresta) ou o Ne-Tsuranari (souto)
podemos fazer com que a cena do vaso seja símile a uma floresta ou parte
dela. O estilo Shakan (inclinado) vos fará sentir o vento que sopra, enquanto o
estilo Kengai (cascata) vos recorda um inacessível pico de montanha.
Uma outra
pergunta é: devo juntar plantas herbáceas ou outro material ao Bonsai? Existem
muitas pessoas que crêem que plantas herbáceas, musgos ou pedras são um
complemento indispensável ao Bonsai, pois esses servem a meter em ressalto o
aspecto da planta, eu sou, num certo modo, de acordo mas não direi que cada espécie
de planta herbácea possa ser usada; algumas certamente sim, algumas vezes essas
ajudam a completar a beleza de um Bonsai.
Existem certas espécies de plantas
e musgos que fazem recordar um prado relvado e pedras ou rochas que nos sugerem
uma cascata ou ribeiro rumorejante. No limite eu penso que se podem usar no
Bonsai “Jacintos” ou “Tulipas”. Nos primeiros anos de 1950 era comum
ver, no meu país, Bonsai de bananeiras não mais altos de 25 centímetros.
Desapareceram, de qualquer modo lamento de não os voltar a ver.
O espírito
do Bonsai
Escrevi até
agora sobre as concessões gerais sobre o mundo do Bonsai japonês e, estou
certo, que estas ideias já vos são familiares. Procederei agora mais à frente
e mais profundo no argumento.
A arte Bonsai
desenvolveu-se no Japão, um país onde existem quatro estações, agua e ar
limpo, um país com 1500 anos de história, de sólidas e antigas tradições e
costumes. Entre estas coisas a arte do Bonsai se desenvolveu e cresceu até
atingir o que é hoje. Não acredito que o Bonsai podesse ter seu
desenvolvimento nas zonas tropicais, glaciares ou desérticas. A associação do
Bonsai com as mudanças de estação, as montanhas, os vales, os rios, os lagos,
as tempestades, a brisa, a chuva, a neve, o gelo e com outros fenómenos
naturais, é mais importante do que se possa imaginar. O Japão é um dos poucos
e afortunados países que têm tudo isto.
O Bonsai não
deverá ser somente a fotocópia ou a imitação tridimensional de uma
fotografia. Se é justo usar a natureza como modelo, o objectivo final deverá
ser algo que foi estudado e refeito nas vossas mentes antes de iniciar a criar.
Só neste caso se lhe pode chamar Arte.
No Japão,
por exemplo, nós temos o teatro tradicional “Noh” ou a dança clássica
japonesa que são a síntese tridimensional de musica e história. Vocês no
ocidente têm o Ballet. Se o Ballet pode ser definido como uma fusão, como a
união da sensibilidade humana e a arte, assim o Bonsai pode ser definido o
homem da natureza com a arte. O teatro Noh e o Ballet se exprimem e se concluem
num tempo relativamente breve. O crescimento e o desenvolvimento do Bonsai são
coisas lentas que quase não se podem notar. O seu objectivo é o de simular o
que acontece na natureza, e a natureza exprime a sua eternidade com lentas, lentíssimas
mudanças. O Bonsai é o lento processo da natureza.
Quando
chegardes a sentir isto, quando a vossa compreensão sobre o Bonsai chegar tão
longe, então não podereis deixar de entrar no mundo do “Wabi” ou “Sabi”.
É empresa árdua, quase impossível, tentar explicar o significado destes
termos porque eles foram inventados para descrever sentimentos criados e
actualmente sentidos só pelos japoneses, sentimentos amadurecidos num lento
processo de gerações. Eles eram desconhecidos dos ocidentais até pouco tempo
atrás.
Wabi é um
estado da mente, um lugar, a atmosfera de uma cerimónia do chá ou um Haiku
(breve pensamento poético tipicamente japonês). É um sentimento de
simplicidade, de calma, de dignidade.
Sabi é um
sentimento de paz interior e de simplicidade que provem de qualquer coisa antiga
utilizada e reutilizada na qual é visível, junto ao passar do tempo, o toque
dos homens que a criaram e possuíram.
Imaginem por
um momento de estar sentados num ângulo do Ryoanji, o famoso jardim de pedra de
Kyoto, é um anoitecer nebuloso dos finais do Outono, estais a olhar o jardim,
depois fechais os olhos e esvaziais a mente. Nesse momento não existem
pensamentos, estais vazios... mesmo assim o vosso coração e a mente se enchem
de um sentimento de serenidade. Este é o Wabi.
Creio
firmemente que o objectivo final de criar um Bonsai seja a procura do Wabi e do
Sabi, essa deveria ser a ultima palavra na Arte Bonsai.
Não tenho
suficientes conhecimentos para explicar a essência da filosofia que procura a
verdade, a virtude e a beleza. Tudo coisas igualmente importantes também para o
Bonsai.
Não somente
técnica
Bem,
retornando à realidade, o Bonsai é uma arte estranha com a qual se podem criar
sensações de realidade e natureza através da manipulação, por um longo período
de tempo, de árvores, pedras, rochas e vasos. Hoje Bonsai é um original do
qual não existe a cópia, a criação não poderá nunca ser considerada
terminada, ela andará em frente para sempre.
A arte Bonsai
não se pode ensinar completamente com técnicas usadas como, por exemplo,
acontece com o Ikebana ou a arte de compor arranjos de flores. Isto
porque nós deveremos procurar, antes de mais, de proteger a vida da planta.
Limitar o
Bonsai com uma técnica ou estilo significa ignorar a fisiologia das plantas. Se
tentarem forçar com um vosso desenho particular a árvore, sem considerar a sua
natureza, esta poderá até morrer. Isto porque a fisiologia da planta é
limitada e vocês deverão conhecer estes limites e have-los presentes quando
criais os vossos Bonsai.
À parte
algumas árvores que se encontram no campo ou nas florestas, os Bonsai são,
acredito, o ser vivente que mais idade pode atingir, algo que vocês podem
ajudar a viver curando-os com amor, eles dividirão convosco as vossas alegrias
e as vossas penas. Diz-se que a vida de uma cerejeira selvagem seja, na
natureza, de 120 anos, mas não é coisa rara ver estas plantas ainda mais
velhas como Bonsai. É como um sentimento religioso que se prova curando e
amando um Bonsai que é, ou será, muito mais velho que nós próprios.
Todos vós,
interessados na arte Bonsai, estudaram, de uma maneira ou de outra, os
ensinamentos de algum bom mestre e aprenderam as técnicas para criar um Chokkan
(erecto formal), o Moyogi (erecto informal), o Shakan
(inclinado), o Kengai (cascata), mas quando chegarem ao Nejikan
(casca em espiral) ou ao sistema de educar as raízes ou os ramos, vos dareis
conta que nem tudo vai tal como tínheis pensado.
Eu trabalhei
com os Bonsai por quase 60 anos, mesmo assim devo superar problemas quase
quotidianos com os fertilizantes, a terra, as regas, as pedras e para ligar os
ramos. Não existe um modo rápido para tomar decisões importantes,
frequentemente ocorrem muitos anos para chegar a uma solução satisfatória.
Ainda
recentemente cheguei a uma conclusão pessoal: a mais entusiasmante técnica na
arte do Bonsai está no transformar uma planta de aspecto não natural, numa
planta de aspecto natural.
Dou um
exemplo: existe uma famosa Zelkova pertencente ao ex. Primeiro Ministro
japonês Shigeru Yoshida que foi também presidente do Nippon Bonsai
Association. Este Bonsai foi criado pelo senhor Ogata cortando o ápice
superior do tronco principal da planta e dando-lhe assim um aspecto totalmente
diferente. Quando o vi pela primeira vez apresentado na exposição anual de Kokufu,
(Kokufu Bonsai Tem), sorri e assim fez também o director do
museu nacional que participava também na exposição. Alguns anos depois, a
planta foi de novo apresentada na exposição de Kokufu e então
reconhecida como um dos mais belos exemplares do Japão. Na realidade trata-se
de uma planta de aspecto singular, jamais encontrareis outra planta de aspecto tão
artificial em nenhuma parte do mundo, mesmo assim ela recorda com exactidão uma
enorme e solitária Zelkova desenvolvida, forte e poderosa, em plena
natureza.
Deixe-me
explicar melhor o discurso com um exemplo. No teatro Kabuki um homem
representa um papel feminino, nós o chamamos de “Oyama”.
Os espectadores sabem que “ela” é “ele” embora ele se mova e
recite como uma mulher. Esta é arte e a mesma coisa pode ser dita da arte
Bonsai.
No Japão e
na China existe aquela que é chamada arte da caligrafia. Existem três modos
basilares de escrever Kenji (ideogramas) tal como os ocidentais têm dois
modos de escrever: com maiúsculas e minúsculas; creio que se possa aplicar as
mesmas variações ao Bonsai. Quando quiserdes recriar um cenário natural,
podem usar sejam as minúsculas como as maiúsculas, o objectivo principal é o
mesmo, mudará somente a forma de o conseguir.
Afortunadamente
existe uma cópia exacta do jardim de pedra de Ryoanji em Brooklin
(botanic garden). Aqueles que ainda não viram o original de Kyoto, se
tiverem a possibilidade de visitar esta cópia de New York, façam-no. Só
devereis sentar e esperar, se estiverdes cansados, fechai os olhos. Estou certo
que esta experiência os ajudará a entender melhor o Bonsai”.
- Traduzi este texto da obra italiana de Gianfranco Giorgi ”BONSAI” que por sua vez o tinha traduzido do original japonês de Kyuzo Murata.
Francisco Chinita
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